O HOMEM QUE QUERIA VER DEUS
Naquela cidadezinha havia um
homem que queria ver Deus.
Todos os dias que vivia,
eram uma expectativa e isso já estava se tornando uma
obsessão.
Numa manhã, juntou algumas provisões e disse
à sua mulher que partiria "em busca de Deus", onde quer
que Ele estivesse.
A mulher, assustada, nem teve
tempo de pronunciar palavra, pois o homem a deixou de
súbito, a passos largos.
Depois de algumas horas de
caminhada, chegou ao sopé de um morro, e viu uma árvore
lá em cima.
Era lá que ele iria esperar pela
aparição, e dali não sairia por nada.
Depois de armar
acampamento, sentou-se e passou a admirar o
lugar, pensando no que diziam as pessoas com relação a
Deus, pois muitos achavam que Ele estava em
tudo, e a natureza fazia parte como um todo.
Mas
isso para ele era muito pouco, deveria haver mais
coisas, não poderia ser tão simples assim.
A noite
chegou, e num misto de medo e bravura, esperava e
nada...
Diante de tal solidão, teria muito tempo para
pensar, e pensou....
Pensou em toda sua vida, desde a
infância, sua mãe, seu pai, suas desilusões, seus
desejos, suas diabruras de criança, enfim não havia outra
coisa ali a fazer senão pensar, e assim adormeceu.
O
dia raiou glorioso, e o homem achou que seria um prenúncio ao
que poderia acontecer.
Talvez um "show" pirotécnico,
alguns anjos soprando alguma coisa, coros com lindas
vozes, enfim, com esse espírito o dia foi transcorrendo e
nada.
Outra vez a noite, e com ela mais decepção.
Por que não me aparece Senhor de tudo, estaria
sendo eu tão pretensioso assim?
Com essas indagações
a noite chegou, e ele perdeu-se novamente em
pensamentos.
Três dias se passaram, e o homem já dava
sinais de cansaço, raiva, além da saudade de um belo
chuveiro e uma cama limpinha, onde ele teria a certeza de
que até seus pensamentos seriam melhores.
Por outro
lado, será que não era isso mesmo que Deus queria, ou
seja, que ele fizesse um pouco de sacrifício, a fim de se
purificar, ficar mais leve, e longe desse mundo tão
hostil? Só poderia ser isso.
Ouvira tanta gente dizer
que sem sacrifícios não se chega aos céus!
Achou que
era só uma questão de tempo e a pirotecnia
começaria.
Naquela noite, qualquer ruído noturno era
motivo para os olhos arregalarem-se.
Mas ainda não
foi o dia.
A exaustão tomou conta daquele homem e num
clima de decepção total, no quinto dia juntou suas
tralhas.
Nunca mais iria se preocupar com a
existência de Deus. A esta altura ele julgava-se um bobo
da corte.
Depois de tudo arrumado, colocou a mochila
nas costas e começou a caminhar.
Cabisbaixo,
acompanhava o movimento de seus pés, e de chofre
parou.
Olhou para a direita, esquerda, e finalmente
virou-se.
Atrás de si podia ver seu rastro na terra, e
em movimentos lentos, mesmo sem saber porque, começou a
voltar pisando exatamente nas suas próprias marcas, como
uma criança numa brincadeira.
Durante esse percurso,
uma emoção muito forte tomou conta de seu coração e foram
inevitáveis as lágrimas.
Nesse pequeno trajeto, que
não passara de alguns poucos metros, mais uma vez seu filme lhe foi passado, até que chegou
ao último passo, que pela ordem seria o
primeiro.
Ali, parado, sem ao menos sentir sua
própria respiração, percebeu que tanto na ida, quanto
na volta, uma pessoa o acompanhou e não precisou de alguns
dias para descobrir quem era: ele próprio!
Naquele
momento se encontrou com Deus.
Daquele dia em diante
sua busca cessou, pois entendeu ( e isso foi sua
própria conclusão), que para ver Deus é preciso ver-se a
si mesmo,
e compreender que Ele está dentro de todos
aqueles que O desejarem, e o mais
importante:
Não é preciso ver para crer, é preciso
crer para ver!
"Deus vive e habita dentro de
você"


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